Mulheres na liderança

Atualmente um dos temas mais discutidos é a igualdade de gênero dentro dos cargos de liderança em uma empresa. Mas, apesar de ser um assunto frequentemente em pauta ainda não encontramos essa mesma igualdade dentro das empresas. Estudos realizados até 2019 mostram que somente 3% dos líderes empresariais no Brasil são mulheres, um número que tem persistido ao longo dos últimos anos. Quando se leva em conta que pouco menos de 60% dos estudantes universitários são mulheres, a baixa participação feminina no topo das grandes empresas causa estranheza. Por que o número é tão baixo? Hoje falaremos sobre isso e também sobre a discrepância ainda maior quando tratamos de investimentos para liderança feminina nas áreas de tecnologia.

Em primeiro lugar vamos relatar dados importantíssimos extraídos de algumas pesquisas com esse mesmo tema. Em 2020 a Fortune 500 [1]anunciou número recorde de mulheres em cargos de liderança, porém esse percentual ainda sim é baixo com 7,6%. Ou seja, das 500 empresas, apenas 38 são comandadas por mulheres, enquanto as outras 462 possuem homens nos cargos mais altos do nível hierárquico. Mas por mais que seja um avanço lento, comparado aos demais anos é um valor significativo, com avanço de 58%, quando comparado a 2018.

Segundo dados do Ministério da Economia[2], as mulheres ocupam 43,8% dos cargos de gerência, 13,9% de diretoria e 27,3% de superintendência. Importante entendermos que esse número irá variar muito de acordo com a área e cenário que olhamos. A área de recursos humanos é a que mais possui diretoria feminina (23%), seguida por marketing (14%), finanças (14%) e jurídico (11%).

Agora quando falamos de inovação e tecnologia temos um outro tipo de contraste. As mulheres vêm ganhando mercado considerável na área de inovação e tecnologia, não apenas em altos cargos, mas como CEOs de suas próprias empresas. Cansadas de lutarem tanto para ganhar seu espaço mesmo possuindo alta qualificação, temos vistos cada dia mais o empreendedorismo feminino em alguns setores crescendo no Brasil. Segundo o estudo realizado pelo Distrito [3]em parceria com a B2MAMY e Endeavor, 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. Porém, ao olhar para as empresas que têm em seu core a tecnologia e a inovação, chamadas startups, esse número cai drasticamente para 9,8%, sendo 4,7% fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% com fundação mista entre mulheres e homens. 

Quais os maiores obstáculos para essas mulheres?

Andrea Miranda fundadora da Standout é um grande exemplo para todas as suas colaboradoras e muitas mulheres no mercado tecnológico e empreendedorismo. Ela vem se destacando cada vez mais por suas conquistas e seu posicionamento. Fundadora e desenvolvedora de uma plataforma de trade marketing digital que é pioneira no Brasil, iniciou sua carreira desde cedo na área de tecnologia, e teve que lidar com muitos preconceitos, principalmente quando falamos do início dos anos 90. Andrea relata que sentiu na pele o preconceito não somente na época que cursava a faculdade com comentários machistas, como atualmente quando os executivos da sua equipe conseguem fechar um contrato em seu lugar pelo simples fato de serem homens. “Tanto o universo da tecnologia quanto das startups ainda são dominados pelo universo masculino e por isso encontramos muitos comportamentos machistas no nosso dia a dia”

Além da Andrea como desenvolvedora e criadora da plataforma, a Standout tem no departamento de tecnologia e desenvolvimento, a programadora Samanta Nakamura, que nos fala um pouco sobre esses desafios também: “Falando a real, não tem dificuldade, se você tem capacidade, tem experiência, é só executar. Mas infelizmente estamos falando de uma área que ainda dominada por homens, então o nosso grande desafio é sempre ficar provando que temos total capacidade de fazer o que qualquer “homem” faz.”

Mas o machismo não termina com comentários pejorativos ou na escolha do sexo para fechar um contrato. Infelizmente muitos estudos apontam números gravíssimos quando falamos em investimentos para startups lideradas por mulheres. Quando levantamos dados sobre o tema, podemos trazer as seguintes informações para vocês. Em um estudo recente a Harvard Business Review mostra que essa desigualdade começa no pitch. Investidores privilegiam os pitchs de empresários ao de empresárias, mesmo quando o conteúdo do argumento de venda é idêntico. Isso se confirma quando olhamos os dados levantados pelo Banco Mundial, onde mostra que total de investimentos de risco nos mercados emergentes, apenas 7% são destinados a negócios liderados por mulheres.  No Female Founders Report realizada pelo Distrito em parceria com a B2MAMY e Endeavor, podemos ver que apesar de serem 4,7% do ecossistema, startups fundadas só por mulheres, apenas 0,04% do total aportado em 2020. Ao longo dos últimos 10 anos o volume investido em startups fundadas por mulheres evoluiu de maneira tímida. Em 2010 nenhum volume de capital foi destinado às empreendedoras, e agora, 10 anos depois, o volume destinado continua muito baixo, sendo de apenas 2,2%. Esses valores mostram como ainda há uma dificuldade para mulheres fundadoras captarem investimentos no setor de inovação.

Podemos analisar que as mulheres enfrentam diversos outros obstáculos como esses e até mesmo o assédio moral, durante sua busca por capital, apenas pelo fato de serem mulheres. Isso nos mostra que, infelizmente, gênero é relevante para alguns fundos de venture capital, sendo levado em conta no processo de tomada de decisão pelo investimento. Segundo uma análise da Fundação Getulio Vargas (FGV)[4] com 247 mil mulheres entre 25 e 35 anos, metade das que tiveram filhos perderam o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. A dificuldade em se recolocar pós-maternidade, outras decisões pessoais ou encontrar menos oportunidades de promoção que homens também justificam a desacelerada na vida profissional, geralmente quando elas alcançam a média gerência.

Benefícios de ter mulheres na liderança de uma empresa

Quando olhamos para os estudos e dados que o mercado nos traz em relação aos benefícios da liderança feminina, temos a percepção de como toda essa desigualdade de gênero nos atrasa e influência no retrocesso do crescimento das empresas. Segundo uma pesquisa da Mckinsey, o resultado financeiro das empresas com mais diversidade de gênero é 21% maior do que o das empresas com menor grau. Agora, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, [5]empresas que monitoram o impacto da diversidade de gênero na liderança reportam crescimento de 5% a 20% nos lucros. Um outro estudo feito pelo fundo de capital de risco First Round Capital[6] apontou que as startups fundadas por mulheres apresentam performance 63% melhor. Ainda neste sentido, segundo o Boston Consulting Group, a cada dólar que uma mulher fundadora ou cofundadora levanta, ela gera 2,5 vezes mais receita do que um fundador do gênero masculino.

E por mais que o cenário atual apresente essa discrepância nas lideranças, ainda sim é um afago para todas as mulheres ver o crescimento da porcentagem mesmo que muito tímido, pois nos dá esperança e força para continuarmos batalhando. Em uma pesquisa anual focada em liderança na indústria de tecnologia realizada pela consultoria KPMG em parceria com a empresa de recursos humanos e tecnologia Harvey Nash,[7] a participação de mulheres em posições seniores em tecnologia na América Latina é atualmente de em 16%. A Revelo, mostra em um levantamento que a inserção feminina no mercado de trabalho brasileiro vem sofrendo transformações e avanços que já podem ser percebidos em algumas áreas. E por último, um outro dado que merece destaque é o aumento da contratação de mulheres em carreiras de tecnologia. Em 2017, elas respondiam por 10,9% das vagas, já em 2020, o número subiu para 12%. O aumento da liderança feminina em tech está muito ligado também ao surgimento de programas específicos para trazer mais mulheres para o mundo de tecnologia antes mesmo do ensino superior, aumentando o incentivo a todas elas.

As empresárias têm se destacado por possuírem habilidades que podem agregar aos negócios, como sensibilidade, capacidade de lidar com vários assuntos e problemas ao mesmo tempo, criatividade e visão sistêmica. Mas é importante ressaltar que as habilidades femininas e as masculinas não devem ser comparadas, mas complementadas dentro de uma empresa e em um ambiente de inovação. Nós mulheres não buscamos ser melhores ou únicas nas corporações, mas sim a igualdade e respeito nas conquistas por mérito. Devemos todas batalhar, e nos esforçar para alcançarmos a liderança, sem seremos subjugadas ou desmerecidas pelo nosso gênero.


[1] Fortune 500 (2020)

[2] Ministério da Economia (2019)

[3] Female Founders Report (2021)

[4] Think Tank – Edição Especial Annual Report (2017)

[5] Organização Internacional do Trabalho (2019)

[6] First Round Capital (2020)

[7] CIO Survey, da KPMG e Harvey Nash (2020)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *